Desde o início de seu mandato, Donald Trump desafiou diversas convenções do comércio global, desde a imposição de tarifas punitivas até o rompimento de acordos multilaterais. Contudo, nenhuma ação teria potencial de desorganização tão profundo quanto a sua repetida ameaça de retirar os Estados Unidos do papel de guardião das rotas marítimas, deixando ao resto do mundo a responsabilidade pela segurança em regiões críticas como o Golfo Pérsico. Essa postura representa uma ruptura drástica com décadas de política externa americana, que sempre priorizou a manutenção da liberdade de navegação em águas internacionais, um pilar fundamental para a economia global e o próprio poderio dos EUA.
O Abandono de um Pilar Estratégico e o Contexto Geopolítico
A tradição americana de salvaguardar os mares, solidificada após a Segunda Guerra Mundial, permitiu o livre e seguro fluxo de petróleo, bens e commodities através dos oceanos, que transportam cerca de quatro quintos do comércio global. A Marinha dos EUA tem sido historicamente a principal força de dissuasão contra ataques, pirataria e tentativas de estados-nação de restringir a passagem legal em mais de 70% da superfície terrestre. A simples possibilidade de Washington reduzir sua presença no Estreito de Ormuz, um ponto de estrangulamento vital, já causa instabilidade e corroi a confiança em um sistema que tem sido a espinha dorsal da prosperidade global.
O vice-almirante reformado John W. Miller, ex-comandante da Quinta Frota dos EUA no Bahrein, ressalta a gravidade da situação, afirmando que o "livre fluxo de comércio pelo estreito é o princípio mais amplo em jogo neste conflito". Segundo Miller, "fracassar em garantir a liberdade de navegação em Ormuz coloca a liberdade de navegação global em risco em todos os lugares", evidenciando a interconexão das rotas marítimas.
Impacto Econômico e a Vulnerabilidade Energética
A incerteza sobre a segurança no Estreito de Ormuz já se traduz em impactos econômicos tangíveis. O tráfego pelo estreito, antes intenso com cerca de 135 navios diários, reduziu-se drasticamente, com o Irã permitindo a passagem principalmente de suas próprias exportações. Essa restrição compromete aproximadamente um quinto dos fluxos globais de petróleo, resultando em elevação dos preços e injeção de volatilidade nos mercados de energia. Autoridades europeias e asiáticas, expressando preocupação sob condição de anonimato, revelam uma crescente desconfiança no papel dos EUA como protetor dos mares, reavaliando seus cálculos de segurança em pontos de estrangulamento estratégicos e questionando a capacidade de Washington de gerir as consequências de tais conflitos.
Desafios ao Direito Marítimo Internacional e a Credibilidade Americana
A liberdade de passagem de embarcações por gargalos como Ormuz e o Estreito de Malaca é protegida por princípios estabelecidos na Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS). Embora os EUA nunca tenham ratificado o tratado, desempenharam um papel central na sua redação e sua Marinha tem sido o principal agente de aplicação das suas regras, que proíbem a regulamentação de navios em trânsito por águas abertas, mesmo que a rota atravesse mares territoriais. As tentativas iranianas de negar passagem ou cobrar taxas – de até US$ 2 milhões por travessia – desafiam diretamente esse sistema, criado para garantir a estabilidade do comércio global.
A postura do governo Trump, no entanto, não se restringe apenas a Ormuz. Dúvidas surgiram sobre o compromisso dos EUA com as regras que protegem todos os marinheiros, como em incidentes no Caribe envolvendo lanchas suspeitas de transporte de drogas e questionamentos sobre a assistência da Marinha a tripulantes de um navio de guerra iraniano que afundou. Essa falta de clareza, inclusive por parte do Pentágono que se limitou a dizer que "continua a fornecer opções ao presidente" sobre o estreito, abala a percepção da consistência e da credibilidade americana na manutenção da ordem marítima internacional.
Busca por Soluções Multilaterais e o Futuro da Navegação Global
Diante da incerteza sobre a política americana, nações menores e altamente dependentes do comércio global têm buscado construir um consenso para uma resposta multinacional. Os Emirados Árabes Unidos, por exemplo, apelaram às Nações Unidas para autorizar medidas, inclusive o uso da força, com o objetivo de reabrir o Estreito de Ormuz. O Reino Unido, por sua vez, reuniu representantes de mais de 40 aliados dos EUA para explorar opções não militares que possam persuadir Teerã a restabelecer o comércio. O secretário-geral da ONU, António Guterres, enfatizou a urgência da situação, afirmando que "Quando o Estreito de Ormuz é estrangulado, os mais pobres e vulneráveis do mundo não conseguem respirar. A liberdade de navegação precisa ser preservada."
A ambiguidade de Trump, que ora sugere afirmar o controle americano sobre a hidrovia, ora defende que outros países assumam a responsabilidade, deixa em aberto o futuro da segurança marítima. A ausência de um plano claro dos EUA cria um vácuo de poder e responsabilidade que o resto do mundo agora se esforça para preencher, seja através de ações diplomáticas ou da construção de novas alianças de segurança.
Conclusão: Uma Ordem Marítima em Transformação
A ameaça de Donald Trump de redefinir o papel dos EUA como guardião das rotas marítimas globais transcende o conflito com o Irã, sinalizando uma profunda reconfiguração da ordem internacional estabelecida no pós-guerra. O questionamento da liderança americana em um domínio tão vital como a segurança dos oceanos não apenas coloca em risco o fluxo de 80% do comércio mundial, mas também desafia os alicerces do direito internacional e a estabilidade geopolítica. A incerteza gerada impulsiona outras nações a buscar soluções colaborativas, mas a transição de um sistema com um hegemônio de segurança para um cenário mais fragmentado e multilateral é permeada por riscos, podendo inaugurar uma era de maior volatilidade e imprevisibilidade para a economia e a paz globais.
Fonte: https://www.infomoney.com.br

