O setor industrial brasileiro, por meio de suas principais entidades representativas, recebeu com ressalvas a recente decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de reduzir a taxa básica de juros, a Selic, em 0,25 ponto percentual, fixando-a em 14,75% ao ano. Embora o movimento seja visto como um sinal positivo, o consenso é de que o ajuste foi aquém do necessário para reverter o cenário de estagnação, destravar investimentos e impulsionar a recuperação econômica do país.
Um Alívio Insuficiente Frente às Necessidades Setoriais
A expectativa da indústria por uma política monetária mais flexível não foi plenamente atendida pelo Banco Central. As federações e confederações destacam que, embora o corte seja um primeiro passo, sua magnitude é insuficiente para gerar um impacto real na atividade econômica e aliviar as pressões que as empresas vêm enfrentando. O setor de transformação, em particular, continua a operar sob um regime de juros que inibe a inovação e o crescimento, necessitando de ações mais contundentes para um efetivo reaquecimento.
Fiesp Critica "Juros Absurdos" e Demanda Responsabilidade Fiscal
A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) expressou forte descontentamento, classificando a redução como "tímida" diante da urgência do cenário nacional. Segundo a entidade, a ausência de euforia na demanda não justifica um rigor monetário tão elevado, que penaliza investimentos e a capacidade de inovação em detrimento da renda fixa. O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, ressaltou que o Brasil opera com uma lógica de juros reais "absurdos", onde as taxas de mercado superam em até seis vezes o índice de inflação. Para a federação, a retomada do crescimento exige que o governo enfrente seus gastos excessivos e déficits, que já elevam a dívida pública a patamares preocupantes, próximos a 80% do PIB, defendendo um ambiente que fomente o crescimento e a geração de renda, e não apenas "ajustes simbólicos".
CNI Alerta para Continuidade da Desaceleração e Juros Reais Restritivos
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) corrobora a visão de insuficiência do corte, avaliando que a medida não será capaz de frear a desaceleração econômica, destravar investimentos ou reduzir o endividamento. O presidente da CNI, Ricardo Alban, apontou que a inflação em desaceleração e as expectativas de mercado dentro da meta de tolerância já justificariam uma queda mais acentuada da Selic, indicando que a cautela do Banco Central ainda é excessiva e segue penalizando a economia. A Confederação urgiu por uma intensificação dos cortes na próxima reunião do Copom para criar condições favoráveis a investimentos, reduzir o endividamento familiar e recolocar o país na trajetória de crescimento, considerando uma flexibilização mais expressiva como condição imprescindível para recuperar a produtividade e o bem-estar social.
A CNI detalhou que a taxa de juros real, com a Selic atual, situa-se em 10,4% ao ano, superando em 5,4 pontos percentuais a taxa neutra estimada pelo próprio Banco Central em 5%. A entidade calcula ainda que uma taxa de equilíbrio, que harmonize pleno emprego e estabilidade de preços, deveria ser próxima de 10,1% ao ano, evidenciando que a Selic está 4,6 pontos percentuais mais restritiva do que o necessário para o controle inflacionário.
Firjan Reforça Necessidade de Equilíbrio Fiscal Sustentável
A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) também ponderou que, apesar da decisão do Banco Central ser coerente com a manutenção das expectativas inflacionárias e o arrefecimento gradual do mercado de trabalho, o nível atual dos juros permanece significantemente restritivo, especialmente para a indústria de transformação. O presidente da Firjan, Luiz Césio Caetano, reconheceu o alívio inicial que o movimento, mesmo que cauteloso, traz ao setor, que lida com desafios internos e pressões globais de custos e logística. Contudo, a Firjan enfatizou a importância de um compromisso com uma agenda estrutural crível de contenção de gastos, mesmo em um contexto de incerteza eleitoral. Para o economista-chefe da Firjan, Jonathas Goulart, a responsabilidade fiscal é o pilar fundamental para diminuir o risco-país e viabilizar juros menores de forma sustentável, sendo a condição para destravar investimentos e permitir que a indústria brasileira recupere sua competitividade global.
Em síntese, o setor industrial brasileiro, embora reconheça a importância do início do ciclo de cortes, unifica-se na percepção de que a atual política monetária ainda impõe um fardo excessivo à economia. As críticas convergiram para a necessidade de um Banco Central mais arrojado na redução da Selic, alinhado a uma postura fiscal rigorosa por parte do governo. A mensagem é clara: sem uma mudança mais contundente nas condições de crédito e um compromisso sólido com a sustentabilidade das contas públicas, o país enfrentará dificuldades em reacelerar sua economia e garantir um ambiente propício ao investimento e à geração de empregos.
Fonte: https://www.infomoney.com.br

