Em um comunicado conjunto que reverberou no mercado nesta sexta-feira, diversas entidades representativas do setor de combustíveis do Brasil emitiram um veemente alerta sobre a iminente ameaça de desabastecimento de diesel em nível nacional. Ao mesmo tempo em que reconhecem os esforços iniciais do governo federal para mitigar a escalada dos preços, os signatários destacam que as medidas adotadas até o momento, embora bem-vindas, terão um impacto restrito e insuficiente no custo final repassado ao consumidor, exigindo ações mais robustas e abrangentes para estabilizar o cenário e evitar repercussões econômicas mais severas.
A Voz Uníssona do Setor e o Alerta de Escassez
A preocupação com a segurança do abastecimento de diesel foi ecoada por um amplo leque de representantes da cadeia produtiva, incluindo a Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes (Fecombustíveis), o Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo de São Paulo (Sincopetro), a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), a Refina Brasil, o Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e de Lubrificantes (Sindicom) e a BrasilCom. Essas associações sublinham a criticidade do diesel para a economia do país e a necessidade urgente de uma política mais eficaz para evitar uma crise logística. Dados recentes da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) indicam uma elevação de 6,76% no preço do diesel na última semana, atingindo R$ 7,26 por litro nos postos, configurando a terceira semana consecutiva de alta, enquanto a gasolina também registrou avanço de 2,94%, chegando a R$ 6,65.
Limitações das Medidas Governamentais na Bomba
As entidades reconhecem a importância de iniciativas como a isenção de impostos federais e a subvenção de até R$ 30 bilhões direcionada a produtores e importadores, medidas que visam aliviar a pressão sobre os custos. Contudo, a avaliação é de que tais incentivos não se traduzem integralmente em uma redução significativa nos preços praticados nas bombas. Uma das principais razões apontadas é que os benefícios incidem primariamente sobre o diesel 'A', comercializado para as distribuidoras, enquanto o consumidor final adquire o diesel 'B', que é uma mistura com 15% de biodiesel. Essa distinção já limita a absorção total dos auxílios governamentais pelo elo final da cadeia de consumo.
Dinâmica de Preços e o Cenário de Mercado
Além da diferenciação entre os tipos de diesel, o setor aponta que o recente reajuste de R$ 0,38 por litro no diesel 'A' anunciado pela Petrobras tende a provocar uma elevação de aproximadamente R$ 0,32 no preço do diesel 'B' para o consumidor. A situação é agravada pela observação de que, em leilões, o diesel 'A' tem sido negociado em faixas de R$ 1,80 a R$ 2 por litro, valores que superam as próprias referências da estatal. Este descolamento de preços é um fator de preocupação, especialmente considerando que uma fatia considerável do abastecimento nacional de diesel provém de refinarias privadas e importadores. A manutenção de preços da Petrobras desalinhados com o mercado internacional, sem uma ampliação correspondente da oferta, poderia levar esses outros fornecedores a reduzir seus volumes de comercialização, intensificando o risco de escassez no país e pressionando ainda mais os custos.
Impacto Multifacetado na Economia Nacional
A gravidade do quadro é acentuada pelo papel central do diesel como principal combustível para o transporte de cargas no Brasil. Qualquer interrupção no abastecimento ou aumento persistente nos preços tem um efeito cascata imediato e profundo sobre a economia. Os alertas se estendem a um possível encarecimento dos fretes, que, por sua vez, impactaria diretamente os custos de alimentos, produtos industriais e diversos serviços essenciais. A ANP, inclusive, tem intensificado fiscalizações, como a força-tarefa em São Paulo que autuou distribuidoras como Vibra, Ipiranga e Nexta, buscando apurar possíveis elevações injustificadas de preços, um sintoma da tensão e da volatilidade no mercado de combustíveis.
Fatores Adicionais na Composição do Preço Final
A complexidade da formação do preço final do combustível nas bombas vai além das medidas governamentais e da política de preços da Petrobras. Segundo o documento das entidades, o impacto efetivo de qualquer intervenção governamental é condicionado por uma série de variáveis interligadas. Entre elas, destacam-se a proporção da mistura obrigatória de biodiesel, o custo de aquisição do próprio biodiesel, o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), os custos de frete, as despesas operacionais das distribuidoras e postos, e, fundamentalmente, a origem do produto — seja ele refinado nacionalmente ou importado. A combinação desses elementos determina a margem de atuação para qualquer política de contenção de preços e a efetividade na chegada dos benefícios ao consumidor, tornando o desafio de estabilização ainda mais intrincado.
Diante do cenário de incertezas e da persistência de um quadro de preços elevados e risco de desabastecimento, o setor de combustíveis reitera a necessidade de um diálogo contínuo e de ações governamentais que abordem de forma mais estrutural os desafios do mercado. A manutenção da estabilidade no fornecimento de diesel é vista como uma premissa inegociável para a saúde econômica do país, e as entidades permanecem vigilantes, cobrando soluções que garantam a fluidez da cadeia logística e a sustentabilidade dos custos para o consumidor final, evitando um impacto maior sobre a inflação e a atividade econômica.
Fonte: https://www.infomoney.com.br

