A China tem conduzido uma ambiciosa política externa focada na expansão de sua presença em portos estrategicamente localizados ao redor do mundo. Embora ocasionalmente enfrente reveses, como a recente disputa por terminais no Canal do Panamá, tais incidentes são meros indícios de uma iniciativa muito maior e mais abrangente. Um estudo recente da AidData, laboratório de pesquisa da universidade americana William & Mary, revela a magnitude dessa estratégia: entre os anos 2000 e 2025, Pequim direcionou aproximadamente US$ 24 bilhões em empréstimos e subsídios para 168 portos, distribuídos em 90 nações.
Intitulado “Anchoring Global Ambitions”, o relatório destaca que esses investimentos não se limitam apenas à expansão comercial, mas visam fortalecer a posição geopolítica e a segurança das cadeias de suprimento do gigante asiático. A iniciativa abrange desde países de alta renda até nações de baixa e média renda, demonstrando uma abordagem diversificada para a consolidação de sua influência marítima global.
A Rede Global de Conectividade e Financiamento Portuário
Nas últimas duas décadas, agências e empresas estatais chinesas têm intensificado o financiamento de portos marítimos com o objetivo primordial de assegurar o acesso e facilitar a exportação de commodities críticas. O relatório da AidData aponta que mais de 363 projetos e atividades portuárias únicas foram financiados globalmente por credores e doadores chineses. Impressionantemente, cerca de US$ 10,8 bilhões desses recursos foram alocados em 29 portos situados em 20 países de alta renda, complementando significativamente os investimentos em economias emergentes.
Essa estratégia visa criar polos de conectividade que envolvem a construção, expansão ou financiamento de infraestruturas portuárias em locais que se conectam a outros investimentos estratégicos chineses, garantindo assim um fluxo contínuo de recursos e mercadorias essenciais para a economia chinesa e para o seu papel no comércio internacional.
O Brasil como Eixo Central na América Latina
Dentro dessa vasta rede de investimentos, o Brasil se destaca como um polo crucial para os interesses chineses na América do Sul. Entre 2009 e 2023, financiadores chineses destinaram quase US$ 505 milhões a projetos portuários no país. Essa relação próxima tem sido cultivada para garantir o acesso a recursos naturais vitais, como a soja e o minério de ferro da mina Pedra de Ferro, com planos para exportação através do Porto Sul na Bahia.
Exemplos concretos da atuação chinesa no Brasil incluem a aquisição majoritária de participação no Terminal de Contêineres de Paranaguá (TCP), onde o investimento atingiu US$ 483 milhões, posicionando-o como o 17º maior projeto portuário global financiado pela China. Além disso, a estatal chinesa COFCO planeja estabelecer seu maior terminal portuário de exportação no Porto de Santos. Tais iniciativas, somadas à crescente presença chinesa em portos como o de Chancay, no Peru, inaugurado em novembro de 2024, reforçam a capacidade da China de assegurar cadeias de suprimento e consolidar sua segurança regional, especialmente com a ambição de criar um corredor bioceânico ligando o Peru ao Brasil.
A Ambição Pelo Controle Operacional e o Modelo "Porto-Ferrovia-Mina"
A estratégia chinesa vai além da simples participação acionária, evidenciando uma busca por controle operacional. Cerca de um quinto de todos os projetos portuários financiados pela China envolvem portos com proprietários e operadores chineses. Essa abordagem sugere que as prioridades de Pequim se estendem à garantia de gestão direta, permitindo maior influência sobre a logística e as operações portuárias.
Um modelo-chave nessa estratégia é o chamado "porto-ferrovia-mina". Este conceito integra o financiamento de portos com o desenvolvimento de infraestruturas de transporte, como ferrovias, e a exploração de recursos minerais, criando um ecossistema logístico completo. Um exemplo notável é o financiamento chinês para o Porto de Chancay, no Peru, que está intrinsecamente ligado ao apoio às operações nas minas de Las Bambas e Toromocho. Esse modelo também é replicado no Brasil, visando otimizar a importação de commodities essenciais como minerais críticos, gás natural liquefeito, petróleo e soja, enquanto facilita a saída de vastas exportações chinesas.
Os Maiores Investimentos e a Relevância Estratégica
A análise dos maiores investimentos portuários chineses revela a diversidade geográfica e a natureza estratégica desses empreendimentos. O Porto Internacional de Hambantota, no Sri Lanka, figura como o principal beneficiário, com um compromisso de US$ 1,97 bilhão. Outros grandes investimentos incluem o Porto de Newcastle na Austrália (US$ 1,32 bilhão), o Porto Autônomo de Kribi em Camarões (US$ 1,17 bilhão), o Porto de Melbourne na Austrália (US$ 1,14 bilhão) e o Porto de Haifa em Israel (US$ 1,13 bilhão).
A inclusão de portos em diversas regiões do globo – desde o Oceano Índico até a África, Oriente Médio e Oceania – sublinha a abrangência da visão chinesa. Esses investimentos são peças fundamentais na construção de uma rede global robusta, que não só serve aos interesses comerciais chineses, mas também projeta seu poder e influência em escala mundial.
A política chinesa de investimento massivo em portos ao redor do planeta é um pilar central de sua estratégia para ascender como uma potência global dominante. Com bilhões de dólares direcionados para infraestruturas marítimas cruciais, Pequim busca garantir a segurança de suas cadeias de suprimento, facilitar seu vasto comércio exterior e expandir sua influência geopolítica. A complexidade e o alcance desses projetos, exemplificados pela busca por controle operacional e o desenvolvimento de modelos integrados como o "porto-ferrovia-mina", indicam uma visão de longo prazo que terá repercussões significativas para o cenário econômico e estratégico mundial nas próximas décadas. Acompanhar os desdobramentos dessa teia de investimentos é fundamental para compreender as dinâmicas futuras do comércio e da segurança global.
Fonte: https://www.infomoney.com.br

